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Ser tão verde

O último resquício da Fazenda dos Afonsos, o sertão carioca defendido como "Patrimônio Nacional"

Nos anos de 1930, a Estrada Intendente Magalhães foi incorporada à Estrada Rio-São Paulo. Com o lema "governar é abrir estradas", o Presidente da República Washington Luís recuperou o antigo Caminho Real para implantar a via Rio-São Paulo, interligando vários pontos da cidade.
Base Aérea do Campos dos Afonsos e ao fundo a zona rural Fazenda dos Afonsos onde hoje é o bairro Jardim Sulacap, 1936 (Fonte: MUSAL/OLIVEIRA).
E, na época, conforme o Plano Viário Agache (1927-1930), que pretendia organizar o crescimento do Rio de Janeiro, a região seria servido pelo corredor expresso que passaria pela Estrada do Catonho, ligando Jacarepaguá a Realengo.
Avenida-parque, larga e ajardinada (parkway), interligaria parques, matas e a zona rural, com o objetivo de proteger contra os excessos de barulho, poeira e perigos.
Além de substituir os bondes movidos a burros por uma rede de transportes rápidos (metrô ou ônibus) para obter maior fluidez e rapidez, o projeto previa um serviço de transporte com conexão direta, sem paradas, entre vários lugares da cidade e integração de diferentes meios de transporte para chegar ao mesmo destino (PREFEITURA; AGACHE 1930). Não é preciso falar que o projeto nem saiu do papel.


Fonte
Os pequenos agricultores e os conflitos
A região, zona rural e agrícola, abrigava vários sítios alugados para os pequenos agricultores. Em março de 1930, os lavradores Antonio Afonso, Manoel Joaquim e Paschoal de Abreu aparecem como moradores. Todos eram portugueses e foram notícia de jornal por causa de uma briga (Correio da Manhã, 27/3/1930, p.5).
No segundo semestre de 1930, lavradores da região receberam uma notificação para sair das terras num prazo de seis meses. Alegando que as terras pertenciam à União, os lavradores pediram ajuda ao Ministro do Trabalho, Lindolfo Leopoldo Boeckel Collor (avô do ex-presidente Fernando Collor).
Na época, o mercado imobiliário consumia as terras do sertão carioca. As terras dos Afonsos não estavam imobilizadas, vinha sendo cultivada pelos sitiantes, mas a companhia proprietária não estava mais disposta a dividir espaço com as antigas lavouras (BRASIL, 1922)
Os moradores viviam sobre ameaça de despejo. Com o tempo, a pressão para que os lavradores da Fazenda dos Afonsos abandonassem as terras aumentava. 
Nesse universo, em 1932, Altino Gomes Pereira e outros lavradores aparecem reclamando contra as ações praticadas pela Companhia Suburbana de Terrenos e Construções (BRASIL, 1932).

Fazenda dos Afonsos: Invernada dos Afonsos (PMERJ), antiga Est. Real, a Est. Catonho, a da Invernada dos Afonsos e outros caminhos ligados à Fazenda dos Afonsos, em 1933. Fonte. Acesso em: 03/07/2012.  

Para Magalhães Corrêa, conservacionista e autor do livro O sertão Carioca, a Fazenda dos Afonsos era patrimônio da União e deveria ser levada à categoria Parque Nacional.

Mapa do livro O sertão carioca, de Magalhães Corrêa (1936). Fonte: VozeRio
No ano de 1933, Magalhães Corrêa, o conservacionista dedicado ao estudo dos problemas florestais aliado à questão de Monumentos Naturais (Monat) e Reservas Biológicas (Rebio),  defendeu que a parte onde fica hoje o Jardim Sulacap - "Patrimônio Nacional" - teria que ser elevada à categoria de Parque Nacional (Parna).


(...) limitam aqui o horizonte a Fazenda dos Affonsos, pertencente ao Patrimônio Nacional. De minha parte acrescento que, dedicando-me como botânico, a estudos de especiaes sobre o nosso grande problema florestal aliado ao de Monumentos Naturaes e Reservas Biológicas, não tenho dúvida em afirmar que futuramente todas as fazendas de domínio da União terão de ser elevada à categoria de Parques Nacionaes, cada parque tendo sua especialização... (Magalhães Corrêa, Correio da Manhã, 19/11/1933, p. 7).
Por sua relevância ecológica e beleza singular, a zona rural dos Afonsos era um dos pontos turísticos da cidade
A paisagem rural hoje quase toda apagada pela expansão urbana na região chamava atenção. No livro Sertão Carioca, lançado em 1936, Magalhães Corrêa incita as pessoas aprenderem mais sobre paisagens e sobre os sertanejos. 
No Rio, Distrito Federal, foram desenvolvidos vários "bons caminhos" e o lugar Fazenda dos Afonsos fazia parte do Circuito Turístico n° 8 "para fins turísticos" (Decreto n° 6000 de 01/07/1937).
As características bucólicas atraiam olhares e cativavam visitantes. O turismo rural gerava renda e valorizava o modo de vida tradicional, a ruralidade e o contato harmonioso com o ambiente natural.
Na beira do Rio dos Afonsos, havia belos eucaliptos. Andando pela Estrada Real de Santa Cruz vários sítios com plantações de laranjas e alguns sitiantes vendiam caldo de cana aos turistas. 
Atravessando o Rio dos Afonsos (ainda dentro da Fazenda dos Afonsos), a Invernada dos Afonsos com um belo "pórtico de entrada rústica", de onde partia uma estrada até o Morro dos Afonsos.
Do outro lado, no Km 6, a Estrada do Catonho era de terra e tinha 5 metros de largura. Havia sítios, granjas, avícolas, chácaras, com lagos, riachos e muita aves em meio aos pomares com frutas douradas (Correio do Manhã, 4/9/1938).


Fonte: Musal.
No sertão dos Afonsos, no pé daquele que viria ser parte do Parque da Pedra Branca, abrigando a maior floresta urbana do mundo, ainda vivia gente diferente do restante da cidade.

Gente que vivia cercada pelo verde, que plantava, colhia e tirava o seu sustento da terra. Gente que vivia em um lugar reconhecidamente rural. Produziam alimentos “pro gasto” e para vender. Gente que pegava o rumo da estrada e abastecia o Mercado de Madureira com alimentos da roça.
Mas a cidade estava vindo, estava perto, chegando... O lugar que os agricultores tradicionais moravam estava inevitavelmente destinado a mudar.

ANOS 40
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