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Sapopemba, 1557

Antes da construção do nosso bairro. Há mais de 460 anos atrás. Depois de 57 anos dos europeus chegarem.

Fonte: IHGBI – Inst. Histórico e Geográfico da Baixada de Irajá. Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/IHGBI-431683443669577/?hc_location=ufi Acesso: 20/10/18.
Aldeia de Sapopemba era o antigo nome da nossa região, antes de parte dela se transformar na Fazenda dos Afonsos e depois no bairro Jardim Sulacap.
O Rio de Janeiro era formado pelas aldeias Pavó-una, Iraiá (Irajá), Eyramirî, Itanã e Sapopemba. Ao sul, a aldeia era Takûarusutyba (Taquara), entre outras. As aldeias eram independentes nos costumes, hábitos e até mesmo na língua.
Antes dos portugueses, ou de qualquer outro europeu, os índios chegaram ao país. Hoje, supõe-se que os povos ameríndios vieram da Ásia, entre 14 mil e 12 mil anos atrás. Teriam chegado por via terrestre através de um "subcontinente" chamado Beríngia, localizado na região do estreito de Bhering, nordeste da Ásia. (IBGE, 2018).
Os franceses desenvolveram boas relações com os índios tupinambás. Isso está claro na obra do francês Jean de Léry (1536-1613) que esteve por aqui em 1557 inserido no projeto França Antártica. Chegou em 04/03/1557 à Ilha de Villegagnom e três semanas depois Léry saiu batendo pernas pelas aldeias localizadas no interior da Guanabara.

Moradores nativos, como viviam?

As aldeias não eram fechadas e nem as casas (malocas) tinham portas. As casas, segundo Léry, mediam, em sua maioria, de 80 a 120 passos; coberta de folhas de palmeira ou pindoba.
Ao redor de algumas aldeias fincavam troncos de palmeiras e colocavam armadilhas contra os inimigos.
Em algumas aldeias moravam em uma mesma casa cerca de 200 pessoas, mas podia chegar 500 a 600 pessoas. A troca de local sem mudar o nome da aldeia era prática comum. O motivo: melhor trocando de ares para não morrer depressa.

Fonte: IBGE.
Longevidade de vida dos tupinambás
Jean de Léry conviveu com os tupinambás quase um ano. Observou que os índios viviam longos anos com saúde e sadios.
(...) habitantes da América, chamados Tupinambás, entre os quais residi durante quase um ano e com os quais tratei familiarmente, não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são, porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes, aleijados ou doentios. Apesar de chegarem muitos a 120 anos. (LÉRY, 1961).
Léry atribui a longevidade ao clima, a “pouca preocupação com as coisas deste mundo” e a água.

Água 
(...) de fato nem bebem eles nessas fontes lodosas e pestilenciais que nos corroem os ossos, dessoram a medula, debilitam o corpo e consomem o espírito, essas fontes em suma que, nas cidades, nos envenenam e matam e que são a desconfiança e a avareza, os processos e intrigas, a inveja e a ambição (LÉRY, 1961).
A água doce (uh-ete, em tupi) é um recurso natural considerado hoje um bem de domínio público pela Lei da Água (n. 433/1997). Cuidar do meio ambiente, do solo e recuperar as nascentes do Rio dos Afonsos (Sapopemba) e do Rio Valqueire (Japoré) são desafios. Hoje em dia, a Cedae é pressionada para melhorar a qualidade de água fornecida à população, que depende unicamente da Estação de Tratamento de Água do Guandu. 

Biodiversidade quinhentista 
A Biodiversidade – a riqueza natural única, segundo o francês Jean de Léry, abrangia:
Animal: Tatu, jacaré, túus (lagarto Teiú), sapo, cobras, tapirussú, taiassú (javali), soouassú, agutí, tapitis, pag (paca), Ian-u-are (jaguara), coatí (quati); peixes diversos (cumuropaní-uassú grande, kynema, pirá-ipochy, tamuatá, paná-paná, parati, uará, acará-uassú, acara peh), morcego, abelhas, aves diversas (como Iacutin, Iacupem, Iacu-assú, muton, mocacouá, inambú uassú, inambumirim, pegassú, tucan, ará, canidé, entre outras), moscas, macacos, saguis, e outras espécies “singulares”.
Além de observar jacarés comuns, Jean de Léry tinha ouvido dizer de uma espécie de jacarés monstruosos que, ao pressentir gente, saem dos caniçais e atacam de tal modo que os índios encontram dificuldades em se defender. Até um dia se deparar com um monstruoso à trinta passos de distância no meio da mata. Ele tinha “escamas esbranquiçadas, ásperas e escabrosas como casca de ostras”.
(...) O monstruoso e medonho lagarto, abrindo a boca por causa do grande calor que fazia e
soprando tão fortemente que o ouvíamos muito bem, contemplou-nos durante um quarto de
hora; voltou-se depois, de repente, e fugiu morro acima fazendo maior barulho nas folhas e
ramos varejados do que um veado correndo na floresta.
 
Vegetal: Arabutan (ybyrá-pytã é o pau-brasil, pau-brasa, que os índios usavam para fogueira), iri, airí, capay, hiyuaré, choyne, pé de acaiú (cajú), jenipapo, naná (ananás), sapucaia, pacoére, algodão; pacova, petyn, cajuá, hetich (para Léry era o “melhor maná dessa Terra!”: jetú, batata doce), manobi (cresce “como trufa”, dentro da terra: amendoim), pimentão, nhambí (coentro do sertão), aypi (aipim), maniot, abóbora, manjericão, beldroega.

Algumas plantas que tinham em 1557 e hoje temos na horta da Praça Quincas Borba 
Pau-brasilcajú, ananásbatata doce, coentro do sertão, aipim), abóboramanjericão e beldroega.
Pau-brasil. Fonte: própria, 6/11/18. 

Coentro do sertão. Fonte: própria, 6/11/18.
Agricultura de subsistência dos tupis
A maior parte do que os índios comiam não era plantada. 
Os índios não plantavam de forma sistemática não por “defeito da terra”. Não era costume dos nativos “cultivar a terra metodicamente”, segundo Léry. 
Eles plantavam só o necessário para o consumo da aldeia, tendo como base o plantio de aipim e da mandioca, além do milho (branco e o vermelho) e batata.

Alimentos dos tupis
A comida dos índios traziam sabores muito particulares aos visitantes. Além de aipim, mandioca, batata e milho, os tupinambás costumavam consumir pimentão, tatu, jacaré, tapitis, agutí, tapirussú, taiassú (javali), peixes diversos, pag (paca), rã, cobras diversas.
Também aves diversas (como Iacutin (jacutinga), Iacupem (jacupemba) e Iacu-assú (jacú grande), muton (mutum), mocacouá (macuco), inambú uassú, inambumirim, pegassú (Picassú), entre outras).
A galinha (arinham-mirim) já havia sido introduzida pelos portugueses, mas não fazia parte do cardápio dos tupis.
(...) “embora apreciem as galinhas brancas, por causa das penas que tingem de vermelho e com as quais se enfeitam, não as comem. E como pensam que os ovos, arinhan-ropiá são venenosos, não só ficavam muito admirados em nos ver sorvê-los mas ainda diziam que por falta de paciência para deixá-los chocar praticávamos a gulodice de comer uma galinha inteira num ôvo” (Lery, 1961).

Tempero da panela tupinambá
O pimentão existia em abundância. Os tupinambás pilavam pimentão com sal e às vezes nhambí (yambi ou nhambú, coentro do sertão) (INSTITUTO SMITHSONIAN, 1948). A essa mistura chamavam ionquet (yjuki, água salgada ou salmoura). Como afirma Léry, os índios não salgavam “os alimentos, carne, peixe etc., antes de pô-los na boca. Tomam primeiro o bocado e engolem em seguida uma pitada de ionquet para dar sabor à comida”.
A tradição de usar temperos no Brasil é milenar; antes da colonização. Assim, podemos dizer que pimentão e coentro do sertão com sal são temperos milenar dos índios.

Trabalho - Ah, se não fossem os nativos! 
Se o índio era preguiçoso?  Então, quem carregou as toras de pau-brasil nos ombros?! A ajuda indígena foi decisiva. Não existiam cavalos, bois nem outros animais para transporte. Ah, se não fossem os nativos!
Segundo Jean de Léry:
(...) “se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens não poderiam nem sequer em um ano carregar um navio de tamanho médio”. Os índios em troca de roupas, chapéus, facas, machados, cunhas de ferro e demais itens dos europeus, cortavam, serravam, rachavam, atoravam, desbastavam e transportavam as toras de pau-brasil “nos ombros nus às vezes de duas ou três léguas de distância, por montes e sítios escabrosos até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros” os recebiam.
Além da roça, a caça, a pesca, comida e fabricação de adornos e artesanatos feitos pelas mulheres, a fabricação de armas (tacapes, arcos, flechas) feitos pelos homens.

Sustentabilidade dos tupis
A comunidade indígena, desde os primórdios, tem uma forte relação íntima com a natureza. Há muito tempo a sustentabilidade da natureza é uma preocupação dos nativos.
Suprir às necessidades atuais da comunidade sem juntar riquezas e sem degradar a natureza de tal modo que comprometa a vida das próximas gerações.

A Terra viva tem o suficiente para as necessidades de todos, mas não é o suficiente para satisfazer a avareza de alguns.
O velho tupinambá perguntou a Jean de Léry:
“_Por que vindes vós outros, maírs e pêros (franceses e portugueses) buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra?”
Léry respondeu: (...) “tínhamos muita mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas”.
“Retrucou o velho imediatamente: _ e porventura precisais de muito?”
Léry: _ “Sim”, “pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados”.
“_ Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: Mas esse homem tão rico de que me falas não morre?”
Léry: _ “Sim, morre como os outros”.
O velho: “_ agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem!”
“_ Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”.

Quem se importava mais com a sustentação da naturezaOs nativos ou os avarentos que degradam, escasseiam e vão embora?
Os tupinambás atribuíam, desde muito tempo, “maior importância à natureza e à fertilidade da terra do que nós ao poder e à providência divina”, segundo Léry, para quem os nativos insurgiam “contra os piratas que se diziam cristãos”, que abundavam na Europa e escasseavam os recursos dos nativos.

O velho índio fez Léry sentir-se envergonhado com o que os europeus faziam com a natureza local
Essa conversa acima com o velho índio deixou Léry envergonhado:
“Os tupinambás, como já disse, odeiam mortalmente os avarentos prouvera a Deus que estes fossem todos lançados entre os selvagens para serem atormentados como por demônios, já que só cuidam de sugar o sangue e a substância alheia. Era necessário que eu fizesse esta digressão, com vergonha nossa, a fim de justificar os selvagens pouco cuidadosos nas coisas deste mundo”.
Os antigos moradores tupinambás sustentaram uma guerra sem tréguas contra os portugueses. Não era por terras ou acúmulo de riquezas. Nada disso os moviam.

Multidão de 8 ou 10 mil tupinambás. Léry se surpreendeu com a capacidade dos índios se moverem para combater os inimigos
Em 1557, os índios, em multidão de oito ou dez mil, se reuniram para combater os inimigos portugueses. Léry, como relata no Cap. XIV, se surpreendeu com a capacidade dos tupinambás de se mobilizar:

Não observam ordem de marcha, nem categoria; os mais valentes, porém, vão na frente e marcham todos juntos, parecendo incrível que tanta gente se possa acomodar espontaneamente e se erguer ao primeiro sinal para uma nova marcha. Tanto no momento da partida como ao levantarem acampamento nos lugares onde pousam (...)
  
Cuidar da terra viva e das pessoas - mobilização é saída
Cada cultura tem coisas boas e coisas ruins. Entenda você o que é bom. Os índios amaram essa terra mais do que tudo, lutaram bravamente por ela e não se deixaram escravizar. Lutaram pelos seus mortos e contra a destruição da natureza provocada pela avareza.
Cuidar e guardar a Mãe Terra é preciso e urgente. Ela não contém vida, pois é a própria vida que se regenera e depois de nossa curta caminhada, estando em condições, nutrirá outras gerações.

Preservar a Mãe Terra requer trabalho coletivo. Não é um problema de uma só pessoa na região, mas é da sociedade como um todo.
É vital não deixar ser levado por forças que vem e destroem, degradam tudo e deixam impossível de usar.  
É preciso ter força para deixar para trás o que não poderá levar para o túmulo. É preciso esforço coletivo para fazer vidas florescerem. Tudo quanto vier, cada um de nós sulacapense use todas as suas forças! 

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