(21)99125-6012

Aldeia Sapopemba

Território de quem deixou um legado de amor à Terra diante da ganância dos de fora

Antes das casas, ruas e praças, onde hoje está assentado o Jardim Sulacap era parte da antiga Aldeia Sapopemba (do tupi sau'pema, espécie de árvore de raízes achatadas que agem de forma solidária como suporte que dão estabilidade aos troncos). Não era terra nullis, terra de ninguém. Era território tupinambá.

Fonte: IHGBI – Inst. Histórico e Geográfico da Baixada de Irajá. Facebook. Disponível em: https://www.facebook.com/IHGBI-431683443669577/?hc_location=ufi Acesso: 20/10/18.

O Rio de Janeiro, nos anos de 1500, era formado pelas aldeias Pavó-una, Iraiá (Irajá), Eyramirî, Itanã e Sapopemba. Ao sul, a aldeia era Takûarusutyba (Taquara), entre outras. As aldeias eram independentes nos costumes, hábitos e até mesmo na língua.

Os franceses desenvolveram boas relações com os índios tupinambás. Isso está claro na obra do francês Jean de Léry (1536-1613) que esteve por aqui em 1557 inserido no projeto França Antártica. Chegou em 04/03/1557 à Ilha de Villegagnom e três semanas depois Léry saiu batendo pernas pelas aldeias localizadas no interior da Guanabara.

Como viviam
As aldeias não eram fechadas e nem as casas (malocas) tinham portas. As casas, segundo Léry, mediam, em sua maioria, de 80 a 120 passos; coberta de folhas de palmeira ou pindoba.
Ao redor de algumas aldeias fincavam troncos de palmeiras e colocavam armadilhas contra os inimigos.
Em algumas aldeias moravam em uma mesma casa cerca de 200 pessoas, mas podia chegar 500 a 600 pessoas. 
A troca de local sem mudar o nome da aldeia era prática comum. O motivo: melhor trocando de ares para não morrer depressa.

Fonte: IBGE.

Longevidade de vida dos tupinambás
Jean de Léry conviveu com os tupinambás quase um ano. Observou que os índios viviam saudáveis e sadios ao longo dos seus anos de vida.
(...) habitantes da América, chamados Tupinambás, entre os quais residi durante quase um ano e com os quais tratei familiarmente, não são maiores nem mais gordos do que os europeus; são, porém mais fortes, mais robustos, mais entroncados, mais bem dispostos e menos sujeitos a moléstias, havendo entre eles muito poucos coxos, disformes, aleijados ou doentios. Apesar de chegarem muitos a 120 anos. (LÉRY, 1961).
Léry atribui a longevidade ao clima, a “pouca preocupação com as coisas deste mundo” e a água.

Água
Podemos imaginar que as nascentes do Rio Sapopemba (Rio dos Afonsos hoje) nasciam bem limpa na Serra que conhecemos hoje como Engenho Velho.

Morro da Caixa D'Água, na Serra do Engenho Velho

Nesse período, o viajante observou que a água doce (uh-ete, em tupi) era cristalina, pura e sadia. 

(...) de fato nem bebem eles nessas fontes lodosas e pestilenciais que nos corroem os ossos, dessoram a medula, debilitam o corpo e consomem o espírito, essas fontes em suma que, nas cidades, nos envenenam e matam e que são a desconfiança e a avareza, os processos e intrigas, a inveja e a ambição (LÉRY, 1961).

Biodiversidade quinhentista 
A biodiversidade – a riqueza natural única de animais e vegetais - abrangia:
Animais: Tatu, jacaré, túus (lagarto Teiú), sapo, cobras, tapirussú, taiassú (javali), soouassú, agutí, tapitis, pag (paca), Ian-u-are (jaguara), coatí (quati); peixes diversos (cumuropaní-uassú grande, kynema, pirá-ipochy, tamuatá, paná-paná, parati, uará, acará-uassú, acara peh), morcego, abelhas, aves diversas (como Iacutin, Iacupem, Iacu-assú, muton, mocacouá, inambú uassú, inambumirim, pegassú, tucan, ará, canidé, entre outras), moscas, macacos, saguis, e outras espécies “singulares”.
Além de observar jacarés comuns, Jean de Léry tinha ouvido dizer de uma espécie de jacarés monstruosos que, ao pressentir gente, saem dos caniçais e atacam de tal modo que os índios encontram dificuldades em se defender. Até um dia se deparar com um monstruoso à trinta passos de distância no meio da mata. Ele tinha “escamas esbranquiçadas, ásperas e escabrosas como casca de ostras”.
(...) O monstruoso e medonho lagarto, abrindo a boca por causa do grande calor que fazia e
soprando tão fortemente que o ouvíamos muito bem, contemplou-nos durante um quarto de
hora; voltou-se depois, de repente, e fugiu morro acima fazendo maior barulho nas folhas e
ramos varejados do que um veado correndo na floresta.
 
Vegetais: Arabutan (ybyrá-pytã é o pau-brasil, pau-brasa, que os índios usavam para fogueira), iri, airí, capay, hiyuaré, choyne, pé de acaiú (cajú), jenipapo, naná (ananás), sapucaia, pacoére, algodão; pacova, petyn, cajuá, hetich (para Léry era o “melhor maná dessa Terra!”: jetú, batata doce), manobi (cresce “como trufa”, dentro da terra: amendoim), pimentão, nhambí (coentro do sertão), aypi (aipim), maniot, abóbora, manjericão, beldroega.

Algumas plantas que tinham em 1557 e hoje temos na horta da Praça Quincas Borba 
Pau-brasilcajú, ananásbatata doce, coentro do sertão, aipimabóboramanjericão e beldroega.
Pau-brasil. Fonte: própria, 6/11/18. 

Coentro do sertão (ou coentro bravo, do mato, coentrão ou chicória do norte). Fonte: própria, 6/11/18.
Agricultura de subsistência dos tupis
A maior parte do que os nativos comiam não era plantada. Eles não plantavam de forma sistemática não por “defeito da terra”. Não era costume dos nativos “cultivar a terra metodicamente”. 
Eles plantavam só o necessário para o consumo da aldeia, tendo como base o plantio de aipim, milho (o branco e o vermelho) e batata.

Comida dos tupis
A comida dos nativos traziam sabores muito particulares aos visitantes. Além de aipim, batata e milho, os tupinambás costumavam comer pimentão, tatu, jacaré, tapitis, agutí, tapirussú, taiassú (javali), peixes diversos, pag (paca), rã, cobras diversas.
Também aves diversas, como Iacutin (jacutinga), Iacupem (jacupemba) e Iacu-assú (jacú grande), muton (mutum), mocacouá (macuco), inambú uassú, inambumirim, pegassú (Picassú), entre outras.
A galinha (arinham-mirim) já havia sido introduzida pelos portugueses, mas não fazia parte do cardápio dos tupis. Os índios achavam gulodice dos europeus "comer uma galinha inteira num ovo". 
(...) “embora apreciem as galinhas brancas, por causa das penas que tingem de vermelho e com as quais se enfeitam, não as comem. E como pensam que os ovos, arinhan-ropiá são venenosos, não só ficavam muito admirados em nos ver sorvê-los mas ainda diziam que por falta de paciência para deixá-los chocar praticávamos a gulodice de comer uma galinha inteira num ôvo” (Lery, 1961).

Temperos da panela tupinambá
O pimentão existia em abundância. Os tupinambás pilavam pimentão com sal e às vezes nhambí (yambi ou nhambú, coentro do sertão) (INSTITUTO SMITHSONIAN, 1948).
A essa mistura chamavam ionquet (yjuki, água salgada ou salmoura). Como afirma Léry, os índios não salgavam os alimentos, carne, peixe, para em seguida comer. "Tomam primeiro o bocado e engolem em seguida uma pitada de ionquet para dar sabor à comida”.
A tradição de usar temperos no Brasil é milenar; antes da colonização. Assim, podemos dizer que pimentão e coentro do sertão com sal são temperos milenar dos índios.

Trabalho 
Se o nativo era preguiçoso? Então, quem carregou as toras de pau-brasil nos ombros nus por léguas?! A ajuda nativa foi decisiva. Não existiam cavalos, bois nem outros animais para transporte.
Ah se não fossem os nativos! Segundo Jean de Léry, se os estrangeiros que por aí viajam não fossem ajudados pelos selvagens não poderiam nem sequer em um ano carregar um navio de tamanho médio”. 
Os nativos em troca de roupas, chapéus, facas, machados, cunhas de ferro e demais itens dos europeus, cortavam, serravam, rachavam, atoravam, desbastavam e transportavam as toras de pau-brasil “nos ombros nus às vezes de duas ou três léguas de distância, por montes e sítios escabrosos até a costa junto aos navios ancorados, onde os marinheiros” os recebiam.
Além da roça, a caça, a pesca, comida e fabricação de adornos e artesanatos feitos pelas mulheres, a fabricação de armas (tacapes, arcos, flechas) feitos pelos homens.

Sustentabilidade dos tupis - um ancião nativo questionou o modelo de exploração da floresta, que gera injustiça, desigualdade e desrespeito. A terra tinha o suficiente para nutrir todas as necessidades, mas a avareza, o uso ineficaz e desigual ameaçava as necessidades essenciais dos nativos, o direito do bem viver e, com isso, gerava conflitos.

O velho tupinambá perguntou a Jean de Léry por que os portugueses e franceses vieram de tão longe buscar lenha para se aquecer? "Não tendes madeira em vossa terra?”
Léry respondeu que tinha, mas não daquela qualidade e não queimavam, extraīam tintas.
E logo replicou o ancião: _ e por acaso precisa de muito?
Léry diz que "sim”, “pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias" "e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados”.
O velho perguntou logo: mas esse homem tão rico de que me falas não morre?
Léry diz que "morre como os outros”.

O velho: “_ agora vejo que vós outros maírs sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalhais tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem!”
“_ Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois da nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados”.

Compromisso com a cultura regenerativa: para o bem viver, a relação de harmonia (não de hostilidade) e de solidariedade (não de competição) com a natureza valia mais do que o caminho da escassez que os de fora submetiam os nativos
Os nativos atribuíam, desde muito tempo, “maior importância à natureza e à fertilidade da terra do que nós ao poder e à providência divina”, segundo Léry, para quem os nativos insurgiam “contra os piratas que se diziam cristãos”, que abundavam na Europa e escasseavam os recursos da terra dos nativos.
A ganância pelo lucro não orientava os índios.

O velho tupinambá fez Léry sentir-se envergonhado com o que os europeus avarentos faziam e reconhece que os nativos cuidavam da terra.
“Os tupinambás, como já disse, odeiam mortalmente os avarentos prouvera a Deus que estes fossem todos lançados entre os selvagens para serem atormentados como por demônios, já que só cuidam de sugar o sangue e a substância alheia. Era necessário que eu fizesse esta digressão, com vergonha nossa, a fim de justificar os selvagens pouco cuidadosos nas coisas deste mundo”.
Os antigos moradores sustentaram uma guerra sem tréguas contra os portugueses. Não era por ganância, terras ou acúmulo de riquezas. Nada disso os moviam.

Multidão de 8 ou 10 mil tupinambás. Léry se surpreendeu com a capacidade dos índios se moverem para combater os inimigos
Os índios que viveram no território sulacapense defenderam o seu lugar até a morte, deixaram a natureza quase intocada e um legado de amor à Terra.
Em 1557, os índios, em multidão de oito ou dez mil, se reuniram para combater os inimigos portugueses. Léry, como relata no Cap. XIV, se surpreendeu com a capacidade dos nativos de se mobilizarem:
Não observam ordem de marcha, nem categoria; os mais valentes, porém, vão na frente e marcham todos juntos, parecendo incrível que tanta gente se possa acomodar espontaneamente e se erguer ao primeiro sinal para uma nova marcha. Tanto no momento da partida como ao levantarem acampamento nos lugares onde pousam...
 

0 comentários:

Postar um comentário